Catástrofe climática é o grande desafio para o seguro e resseguro

Catástrofe climática é o grande desafio para o seguro e resseguro

O mercado brasileiro de seguros e resseguros caminha para a consolidação de um modelo semelhante ao adotado no setor financeiro sobre políticas sustentáveis e ESG (agenda de responsabilidade ambiental, social e de governança, na sigla em inglês). Essas práticas já são aplicadas por bancos para a concessão de linhas adicionais e diferenciadas de crédito. No setor de seguros, funcionará de forma parecida para clientes que tenham políticas de sustentabilidade definidas, gestão de riscos e capacidade para mitigá-los. Assim, os segurados terão acesso a novos produtos e serviços mais atraentes, e até soluções personalizadas, como já acontece em outros países, principalmente na Europa.

A Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg) avalia que o setor segurador do país está cada vez mais comprometido com questões sustentáveis, razão pela qual já vem considerando aspectos relacionados às mudanças climáticas ao avaliar ativos para investir recursos próprios, reservas técnicas, fundos de previdência e outros recursos financeiros. A entidade acredita que é importante que as seguradoras tenham bases de dados consolidadas, acessíveis e integráveis, já que, sem elas, enfrentarão obstáculos para o desenvolvimento de metodologias de precificação e gestão de riscos de sustentabilidade com base em cenários climáticos.

Diante da relevância de práticas ambientais, sociais e de governança para fazer negócios, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) fez uma consulta pública – concluída recentemente – para estabelecer diretrizes e requisitos de sustentabilidade no setor. “Apesar de muitas seguradoras possuírem políticas socioambientais consolidadas, ao criar regras e definir elementos mínimos para as supervisionadas, a Susep estabelecerá parâmetros para que elas estejam na mesma página”, diz Solange Beatriz Palheiro Mendes, diretora-executiva da CNseg.

Ricardo Ciardella, diretor de especialidades da corretora Marsh Brasil, avalia que a iniciativa da Susep tenta colocar de forma objetiva critérios e procedimentos para precificação e subscrição de riscos que considerem o histórico e o comprometimento do cliente na gestão dos riscos de sustentabilidade e sua capacidade e disposição para mitigá-los. “Cada vez mais, as seguradoras vão reconhecer empresas com fortes estruturas de ESG como sendo aquelas com os melhores riscos para serem segurados, principalmente diante dos impactos das catástrofes naturais no setor de seguros”, afirma o executivo da Marsh.

Roberto Hernández, diretor-executivo de seguros corporativos da seguradora Zurich, diz que o setor já apresentou uma contraproposta que está sendo discutida entre representantes das entidades e as comissões de sustentabilidade e gestão de riscos da CNseg e da Susep. “A expectativa é de que a norma saia neste ano, e o mercado espera que os prazos para cumprimento de todos os requerimentos sejam diluídos ao longo dos próximos anos, especialmente no que diz respeito a processos de gestão de riscos, base de dados de informações e metodologias quantitativas de riscos e apetite, além de modelos de mensuração de impacto dos riscos climáticos físicos e de transição nos balanços das empresas.”

Não é de agora a preocupação de lideranças empresariais, acadêmicas e políticas sobre mudanças climáticas e desastres naturais ao redor do planeta, cuja severidade tende a aumentar e tem se manifestado em forma de secas, incêndios, inundações e escassez de recursos com perdas econômicas globais bilionárias às seguradoras. Só no ano passado, esses eventos provocaram um prejuízo de US$ 120 bilhões, segundo a Munich Re, uma das líderes globais de resseguros, seguros e soluções de riscos. A Aon, uma das principais empresas de consultoria em gestão de riscos e seguros, aponta que os dados de 2021 mostram que as perdas econômicas globais devido a catástrofes climáticas estão 27% acima da média do século 21.

Num outro relatório, o Instituto Swiss Re destaca que, na última década, apenas 5% das perdas por inundações estavam seguradas em mercados emergentes e 34% em economias avançadas, indicando uma grande lacuna de proteção global. Já a Aon aponta que o pior desastre natural em 2021 enfrentado pelo Brasil foi a seca extrema na bacia do rio La Plata, que gerou prejuízos de US$ 4,3 bilhões para o país. Somadas as perdas enfrentadas pela Argentina e Paraguai, os valores ultrapassam US$ 4,7 bilhões, sendo que apenas US$ 100 milhões se referem a perdas seguráveis.

“A importância desses dados para o setor de seguros é muito alta, pois ajudam a balizar apólices mais assertivas e coberturas adequadas para empresas que tenham exposição a esse tipo de risco, amenizando impactos à sociedade”, explica Maurício Masferrer, vice-presidente de riscos e seguros corporativos da Aon Brasil. Ele pondera que casos como esse podem resultar, por exemplo, em falta de geração de energia – na bacia argentina existem 63 reservatórios e plantas hidrelétricas com capacidade de geração de 61.000 MW – e escassez de água para consumo humano. Segundo Masferrer, empresas sem apólices adequadas para apoiar em situações como essas demoram para voltar a se estabilizar, resultando na diminuição de investimentos, congelamento de postos de trabalho e até a retomada das atividades.

A CNseg diz que grande parte das seguradoras no país não tem medido esforços para melhorar a proteção que permita mitigar danos relacionados a desastres naturais, que vêm aumentando tanto em frequência quanto em intensidade. “Entender os possíveis impactos da mudança climática é essencial em qualquer companhia de seguros. Estamos ante um dos riscos mais complexos a que temos de fazer frente. Os modelos de precificação contêm informações sobre os impactos dos desastres naturais, porém as incertezas do que pode suceder no futuro tornam difícil contar com modelos exatos de dados”, pondera Hernández, da Zurich.

Para precificar melhor esses modelos, a Marsh lançou recentemente uma ferramenta de classificação de risco que avalia o desempenho das empresas em 18 temas de ESG no segmento ambiental, social e de governança. Ciardella explica que essa avaliação de risco mede o avanço das companhias em todas as áreas, principalmente em relação a políticas ambientais. “Quanto melhor for o rating ambiental da empresa, melhor será o seu acesso ao mercado segurador e à capacidade adicional para as coberturas de seguros para os seus riscos”, explica.

Outro produto da Marsh relacionado ao clima é o Seguro Paramétrico, usado como gatilho da apólice, que tem cobertura para proteger empresas de eventos climáticos inesperados, como frio intenso, geadas recorrentes, escassez de chuvas, entre outros riscos relacionados ao clima. Para chegar a esse parâmetro, a companhia usa uma base de dados históricos com a maior correlação possível com a exposição da empresa ao evento climático, correlacionando seus possíveis danos e prejuízos. Uma vez que o gatilho é atingido, o sinistro é acionado. “O objetivo é garantir a receita da empresa ante a possibilidade de uma intempérie climática interferir em seus resultados. Isso não vale apenas para empresas do agronegócio, mas também para outros segmentos, como logística, navegação, infraestrutura e construção”, explica. “Não vejo risco climático que não possa ser segurado”, acrescenta Ciardella.

A Zurich também incluiu no seu portfólio de seguros mais opções de coberturas e serviços relacionados a desastres naturais. Com isso, a companhia oferece a seus clientes a avaliação de riscos relacionados a desastres naturais, inclusive considerando estimativas de aumento, frequência e severidade, de acordo com vários cenários possíveis para o futuro. A companhia conta também com um mapa de alagamentos que utiliza nas análises de risco que faz para seus clientes. “Esta é uma solução que estamos utilizando para avaliar nossa carteira e apoiar nossos clientes na difícil tarefa de entender e mitigar os impactos quanto aos fenômenos da natureza”, explica Hernández.

Segundo ele, a Zurich também disponibilizou – para clientes e não clientes – um aplicativo gratuito que possibilita avaliações de riscos a distância, em tempo real, em qualquer parte do mundo, assim como nas situações de sinistros. “Um fenômeno emergente relacionado à governança das empresas no quesito relativo ao ESG é a chamada climate litigation. Isto é, a crescente importância e relevância que tem para os investidores o gerenciamento dos impactos da mudança climática pelos quadros diretivos das empresas”, explica. Para Hernández, ainda que o setor esteja hoje diante de uma nova realidade, é fato que as seguradoras precisam entender e ajudar os seus segurados, aproveitando todo o conhecimento adquirido ao longo de anos no gerenciamento da prevenção e mitigação de riscos e na gestão de sinistros provocados por desastres da natureza.

A Swiss Re é outra seguradora que conta com uma ferramenta de risco geológico, que combina informações de perigo, perda, exposição e seguro com mapas e imagens de satélite. Baseada em um navegador, a ferramenta se vale de mapas e dados sobre mudanças climáticas, impacto de eventos catastróficos e densidade populacional, entre outros, para apoiar o trabalho diário. Fred Knapp, CEO de resseguros no Brasil e Cone Sul da companhia, lembra que os perigos secundários têm sido menos bem monitorados do que os primários. Pelo menos é o que indica o relatório “Catástrofes naturais em 2021: as comportas estão abertas”, publicado recentemente pelo Instituto Swiss Re. “O primeiro passo para construir uma verdadeira resiliência contra este tipo de risco é aumentar a compreensão ao seu redor. Hoje, existe um amplo conjunto de ferramentas que vão desde sofisticados mapas de risco até modelos totalmente probabilísticos”, explica Knapp.

Segundo ele, os resseguradores podem e devem ser atores centrais no preenchimento dessas lacunas de proteção em todo o mundo, tanto como investidores de longo prazo em infraestrutura sustentável e estratégias de mitigação quanto na expansão do alcance da cobertura, incluindo soluções paramétricas. “Para que isso aconteça, os perigos secundários devem ter a mesma atenção do setor que os perigos primários no que diz respeito à qualidade da exposição e dos dados de sinistros. Com uma avaliação de risco mais rigorosa, será possível reverter esta situação”, diz Knapp.

A Aon, por sua vez, lançou em abril novidades exclusivas para apoiar a jornada ESG de clientes no Brasil, como a cláusula específica para oferecer cobertura contra reclamações de greenwashing (lavagem verde ou maquiagem verde – refere-se à prática de camuflar, mentir ou omitir informações sobre os reais impactos das atividades de uma empresa no meio ambiente) na apólice de D&O (Directors & Officers), também conhecido como Seguro de Responsabilidade Civil para Diretores e Administradores. Segundo Masferrer, clientes estavam demandando uma solução nesse sentido desde o ano passado, tendo em vista que, em alguns países, esse fato já é gatilho de processos, impactando de forma negativa a imagem da empresa. “Tamanha é a demanda que, no mesmo mês de lançamento da solução, já emitimos apólice com essa cobertura”, afirma o executivo da Aon.

A companhia lançou também o serviço de due diligence para emissão de green bonds. Para isso, entrega um relatório em que avalia riscos e seguros (caso existentes) de projetos que receberão o capital levantado pelo título. Completando o ciclo, a Aon criou uma cláusula específica contra reclamações de greenwashing referentes ao prospecto de emissão do Green Bond, também no D&O, com o intuito de trazer maior governança e segurança a gestores de empresas que estão emitindo esses títulos. “É importante ressaltar que as coberturas de greenwashing têm como principal intuito deixar claro o clausulado para proteção da empresa e respectivos gestores que recebam essa reclamação sem embasamento. Caso seja confirmado o dolo, a cobertura age como todas as demais do D&O e exigirá o reembolso à seguradora dos custos de defesa que foram adiantados”, explica Masferrer. Segundo ele, a Aon é a única a oferecer essas soluções no Brasil. “Entendemos ser importante apoiar nossos clientes nessa jornada ESG de constante evolução, para que possam chegar mais longe e com maior segurança.”

Fonte: Valor Econômico

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